terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado
A entrada de Ciro Gomes na disputa da eleição presidencial se reveste da maior importância porque ele, de fato, prejudica diretamente o PT e o seu projeto político de longo prazo, mais até do que uma eventual vitória de José Serra. Tudo que o PT desejava era a polarização com o candidato tucano, é tudo que não terá. O governador de São Paulo talvez viesse a mudar muito pouco os projetos em curso do PT dentro do Estado. Talvez algo mais forte na condução da política econômica, pois aqui suas crenças esquerdistas são mais desenvolvidas e radicais. Certamente a política cambial e de juros sofreria uma inflexão.
Ciro Gomes é uma incógnita nesse tema. Seu programa efetivo é um enigma, embora de público faça o discurso alinhado com o PT. Bem sabemos que uma coisa é o discurso, bem outra a ação. Dificilmente Ciro manteria a maluca política externa que Lula tem praticado, de apoio a Hugo Chávez, de abandonar o mercado norte-americano, de sacrificar os legítimos interesses nacionais em favor de duvidosas convicções ideológicas, como vimos no caso da Bolívia e do Paraguai. Na política internacional, se Ciro Gomes vier a ser presidente haverá um grau de realismo maior e o PT, enquanto partido revolucionário que lidera o Foro de São Paulo, perderia um dos seus maiores trunfos, o comando do Itamaraty.
Texto completo
O magnífico artigo de Demétrio Magnoli publicado hoje no Estadão (“O terceiro Chávez) prognosticou que, se a Dilma não for eleita, o presidente da Venezuela não sobreviverá politicamente. Com a presença de Ciro Gomes isso será um fato imediato. Vemos aqui porque Lula adoeceu ao receber a negativa do político cearense ao pedido seu para que se afastasse da disputa. Teve uma crise aguda de “cirose”.
Também não consigo imaginar Ciro Gomes patrocinando alucinações coletivas bolcheviques como a Confecom e a Conferência Nacional de Direitos Humanos. Fui informado que poderosos meios de comunicação já estão alinhados com sua candidatura, como Fernando Collor de Mello foi adotado no passado. A perda dessas alucinadas conferências representará para o PT enorme perda de prestígio e de capacidade de mobilização.
O paradoxal é que não sobrará alternativa ao PT que não apoiá-lo, se vier a passar ao segundo turno contra José Serra. Ato contínuo, o partido desinflaria rapidamente e mesmo o apoio em meio ao funcionalismo público poderia ser perdido. A simples colocação da candidatura Ciro Gomes tenderá a dividir o palanque da candidata Dilma em muitos Estados. Isso trará uma grande fragilização para os candidatos a governador e a senador da legenda, bem como retirará força para a formação de uma bancada maior na Câmara de Deputados.
A candidatura Ciro Gomes está para o PT como o terremoto para o Haiti. Será um desastre completo. No mínimo, favorecerá a candidatura de José Serra, dividirá os votos de Dilma e fulminará qualquer pretensão hegemônica do PT pela via eleitoral. Bem disse Ciro Gomes que o “Santo” Lula não tem muito a falar sobre o assunto. Até o final do ano a “cirose” presidencial aumentará exponencialmente.
É divertido assistir à turma do poder na iminência de naufragar sem ter nada a fazer para escapar ao desastre político. Seus líderes não podem pressionar o candidato rebelde de nenhum modo, sequer podem atacá-lo, pois vá que ele passe ao segundo turno, precisarão ter um nome a apoiar. Uma sinuca de bico. Sem dúvida, a campanha eleitoral ganhou novo colorido. E os hospitais uma nova doença para tratar, a “cirose” do Lula.
Fonte:http://www.averdadesufocada.com/index.php option=com_content&task=view&id=2858&Itemid=1

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Governo pode retirar aval do PNDH3

 Governo pode tirar aval de propostas do Plano de Direitos Humanos
O governo estuda fazer uma pequena alteração no texto do Decreto do Plano Nacional de Direitos Humanos que poderia tirar o peso das propostas criticadas por vários setores da sociedade. A mudança poria fim ao aval do governo para o texto, que passaria a ser publicado como resultado da Conferência de Direitos Humanos. As informações são do jornal O Globo desta quarta-feira.

Com a medida o governo deixaria de se comprometer com as propostas que passariam a ser resultado de uma conferência. No entanto, a mudança não é consenso no governo, nem entre petistas. O líder do PT, deputado Cândido Vaccarezza (SP), disse que o recuo seria um desgaste para o governo. O trecho sobre o aborto, união civil entre pessoas do mesmo sexo e a utilização de símbolos religiosos em repartições públicas devem ser retirados do plano para evitar desgastes com a igreja.
  Redação Terra (http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=2732&Itemid=1)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

REFLEXÕES SOBRE O VOTO...FELIZ 2010


Amigos, mais um ano está se findando e junto com ele os sonhos de todo sincero trabalhador em ver a política direcionada aos anseios do povo.
Neste ano fomos bombardeados com notícias alarmantes de corrupção em todas as esferas de poder. Todos os anos de eleições somos reféns de discursos bem preparados e ótimos oradores ( que nos fazem chorar e rir)...quando assumem o poder parecem sofrer de uma amnésia de 4 anos e quando finda o mandato...recobram a consciência!
Temos essa mania de viver de esperanças políticas, parece novela onde tudo termina bem...só para os bonzinhos...Na vida real tudo dá certo para os mauzinhos, exatamente o contrário.
Parece muito com o discurso do Antonio Conselheiro que com sua excelente oratória arrebanhou milhares de miseráveis para Canudos - BA, ( com a esperança de que no sertão haveria água abundante e que todo sertanejo finalmente teria a chance de ter um trabalho e vida digna), sermão bonito...mas quando os sonhos de uma geração entram em rota de colisão com uma pequena minoria detentora de grande poder aquisitivo os resultados são catastróficos, centenas de pessoas (miseráveis) morreram nos combates de Canudos. Poderíamos citar outros profetas com suas promessas: Monge José Maria (guerra do Contestado), Movimento dos Monges Barbudos (Rio Grande do Sul). Sinceramente o fim trágico do Conselheiro e de seus seguidores deveria provocar em todo brasileiro uma profunda reflexão sobre a política brasileira.
Não dar para confiar em todo papo, discurso, abraços, beijos, cestas básicas, promessas de um venturoso CC, por mais que os políticos demonstrem preocupação pelo povo, mesmo que seja um religioso, pastor...qualquer que seja a ação ou a idéia religiosa do candidato, tudo absolutamente tudo deve ser digna de uma profunda reflexão (ex: se este candidato oferece dinheiro agora para comprar meu voto, o Brasil irá ser beneficiado no futuro? Se distribui cestas básicas em troca de voto, o tal político representará bem os desejos do povo?).
Os candidatos fazem de tudo, olha o que encontrei na internet:



Neste ano 2010, que possamos ter saúde e inteligência para escolher melhor os candidatos para representar-nos e defender os interesses do Brasil.
Encontrei essas dicas no site http://www.dica.info/como_votar_no_candidato_certo.html
Nunca vote em candidatos que:

1. Vivam à sombra da suspeita de corrupção e de escândalos;

2. Não sejam de sua região ou que nela só compareçam em época de eleição;

3. Tenham fonte de rendimentos desconhecida, imoral ou duvidosa;

4. Sujem nossas cidades com suas fotos e santinhos;

5. Usem de seus mandatos para obter vantagens pessoais, familiares ou empresariais;

6. Sejam arrogantes, falsos profetas, charlatões, violentos ou que se achem os donos da verdade e modelos de perfeição;

7. Ofereçam alguma coisa em troca de votos;

Tenha alguns cuidados antes de votar nas eleições, seu voto é muito importante e dele depende o futuro do país.
"Nemo potest personam diu ferre fictam: ficta cito in naturam suam recidunt." (Sêneca)

("Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza.")



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Serra ou Dilma? A Escolha de Sofia




Serra ou Dilma? A Escolha de Sofia



Rodrigo Constantino

“Tudo que é preciso para o triunfo do mal é que as pessoas de bem nada façam.” (Edmund Burke)

Aécio Neves pulou fora da corrida presidencial de 2010. Agora é praticamente oficial: José Serra e Dilma Rousseff são as duas opções viáveis nas próximas eleições. Em quem votar? Esse é um artigo que eu não gostaria de ter que escrever, mas me sinto na obrigação de fazê-lo. Afinal, o futuro da liberdade está em jogo, sob grande ameaça. Nenhuma das opções é atraente. Nenhum dos candidatos representa uma escolha decente para aqueles que defendem as liberdades individuais. Será que há necessidade de optar? Ou será que o voto nulo representa a única alternativa? Tais questões me levaram à lembrança do excelente livro O Sonho de Cipião, de Iain Pears, uma leitura densa que desperta boas reflexões sobre o neoplatonismo. Quando a civilização está em xeque, até onde as pessoas de bem podem ir, na tentativa de salvá-la da barbárie completa? Nas palavras do autor: “Usamos os bárbaros para controlar a barbárie? Podemos explorá-los de modo que preservem os valores civilizados ao invés de destruí-los? Os antigos atenienses tinham razão ao dizerem que assumir qualquer lado é melhor do que não assumir nenhum?”

Permanecer na “torre de marfim”, preservando uma visão ideal de mundo, sem sujar as mãos com um voto infame, sem dúvida traz conforto. Manter a paz da consciência tem seus grandes benefícios individuais. Além disso, o voto nulo tem seu papel pragmático também: ele representa a única arma de protesto político contra todos que estão aí, contra o sistema podre atual. Somente no dia em que houver mais votos nulos do que votos em candidatos o recado das urnas será ouvido como um brado retumbante, alertando que é chegada a hora de mudanças estruturais. Os eleitos sempre abusam do respaldo das urnas, dos milhões de eleitores que deram seu aval ao programa de governo do vencedor, ainda que muitas vezes tal voto seja fruto do desespero, da escolha no “menos pior”.

Mas existem momentos tão delicados e extremos, onde o que resta das liberdades individuais está pendurado por um fio, que talvez essa postura idealista e de longo prazo não seja razoável. Será que não valeria a pena ter fechado o nariz e eliminado o Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista em 1933 na Alemanha, antes que Hitler pudesse chegar ao poder? Será que o fim de eliminar Hugo Chávez justificaria o meio deplorável de eleger um candidato horrível, mas menos louco e autoritário? São questões filosóficas complexas. Confesso ficar angustiado quando penso nisso.

Voltando à realidade brasileira, temos um verdadeiro monopólio da esquerda na política nacional. PT e PSDB cada vez mais se parecem. Ambos desejam mais governo. Ambos rejeitam o livre mercado, o direito de propriedade privada, o capitalismo liberal. Mas existem algumas diferenças importantes também. O PT tem mais ranço ideológico, mais sede pelo poder absoluto, mais disposição para adotar quaisquer meios – os mais abjetos – para tal meta. O PSDB parece ter mais limites éticos quanto a isso. O PT associou-se aos mais nefastos ditadores, defende abertamente grupos terroristas, carrega em seu âmago o DNA socialista. O PSDB não chega a tanto.

Além disso, há um fator relevante de curto prazo: o governo Lula aparelhou a máquina estatal toda, desde os três poderes, passando pelo Itamaraty, STF, Polícia Federal, as ONGs, as estatais, as agências reguladoras, tudo! O projeto de poder do PT é aquele seguido por Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, enfim, todos os comparsas do Foro de São Paulo. Se o avanço rumo ao socialismo não foi maior no Brasil, isso se deve aos freios institucionais, mais sólidos aqui, e não ao desejo do próprio governo. A simbiose entre Estado e governo na gestão Lula foi enorme. O estrago será duradouro. Mas quanto antes for abortado, melhor será: haverá menos sofrimento no processo de ajuste.

Justamente por isso acredito que os liberais devem olhar para este aspecto fundamental, e ignorar um pouco as semelhanças entre Serra e Dilma. Sim, Serra tem forte viés autoritário, apresenta indícios fascistas em sua gestão no governo de São Paulo, deseja controlar a economia como um czar faria, estou de acordo com isso tudo. Serra representa um perigo para as liberdades, isso é fato. Mas uma continuação da gestão petista através de Dilma é um tiro certo rumo ao pior. Dilma é tão autoritária ou mais que Serra, com o agravante de ter sido uma terrorista na juventude comunista, lutando não contra a ditadura, mas sim por outra ainda pior, aquela existente em Cuba ainda hoje. Ela nunca se arrependeu de seu passado vergonhoso; pelo contrário, sente orgulho. Seu grupo Colina planejou diversos assaltos. Como anular o voto sabendo que esta senhora poderá ser nossa próxima presidente?! Como virar a cara sabendo que isso pode significar passos mais acelerados em direção ao socialismo “bolivariano”?

Entendo que para os defensores da liberdade individual, escolher entre Dilma e Serra é como uma escolha de Sofia: a derrota está anunciada antes mesmo da decisão. Mesmo o resultado “desejado” será uma vitória de Pirro. Algo como escolher entre um soco na cara ou no estômago. Mas situações extremas demandam medidas extremas, e infelizmente colocam certos valores puristas em xeque. Anular o voto, desta vez, pode significar o triunfo definitivo do mal. Em vez de soco na cara ou no estômago, podemos acabar com um tiro na nuca. Dito isso, assumo que votarei em Serra, mas não sem antes tomar um Engov. Meu voto é anti-PT acima de qualquer coisa. Meu voto é contra o Lula, contra o Chávez, que já declarou abertamente apoio a Dilma. Meu voto não é a favor de Serra. E, no dia seguinte da eleição, já serei um crítico tão duro ao governo Serra como sou hoje ao governo Lula. Mas, antes é preciso retirar a corja que está no poder. Antes é preciso desarmar a quadrilha que tomou conta de Brasília. Ainda que depois ela seja substituída por outra parecida em muitos aspectos. Só o desaparelhamento de petistas do Estado já seria um ganho para a liberdade, ainda que momentâneo. Respeito meus colegas liberais que discordam de mim e pretendem anular o voto. Mas espero ter sido convincente de que o momento pede um pacto temporário com a barbárie, como única chance de salvar o que resta da civilização – o que não é muito.
Fonte: http://rodrigoconstantino.blogspot.com/ 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ex-ministro Senador Cristovam Buarque E A Internacionalização Da Amazônia

10/10/2000 - O Globo
mundo
Este artigo foi publicado há 8 anos, mas merece ser relembrado novamente pois deu uma lição de moral nos americanos que querem tomar a amazônia. Durante debate ocorrido no mês de Novembro/2000, em uma Universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT), foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:
“De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo e risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado
Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou
de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveriam pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.
Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.”
Autor do artigo: Cristovam Buarque, Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Rompendo o Silêncio (Download)





"Investigando por conta própria alguns casos, tive a oportunidade de conversar com guerrilheiras presas no DOI-CODI paulistano sob comando do próprio Ustra que me garantiram que ele jamais nelas tocou, reforçando os argumentos que desmentem Beth Mendes. Houve tortura no DOI? Provavelmente sim. Ustra foi um torturador? Pelos relatos que tomei, muito provavelmente não. O coronel tem um livro sobre o período que chefiou o DOI, chamado Rompendo o Silêncio e que precisa ser reeditado o mais rápido possível." - Sandro Guidalli, em Mídia sem Máscara [ 08-12-2002 ].

CINISMO HEDIONDO

 Folha de S. Paulo  


Projeto do Executivo para agravar penas em casos de corrupção é inócuo, pois não enfrenta o problema da impunidade
O ANÚNCIO do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que encaminhará ao Congresso projeto de lei para agravar as penas previstas em casos de crimes de corrupção só pode ser recebido como mais um lance de marketing do primeiro mandatário.
A proposta é a um só tempo redundante e demagógica. Redundante por já existir na Câmara iniciativa para tornar "hedionda" a malversação de dinheiro público; demagógica por tentar fazer crer que o combate aos desvios dependeria do aumento das punições fixadas na legislação.
A atuação do presidente da República, no mensalão do PT, é exemplo de tergiversação e falta de rigor . Preferiu passar a mão na cabeça de apaniguados e, assim, alimentar a verdadeira causa da proliferação desses crimes: a expectativa de impunidade.
É a certeza de que haverá punição -mais que o tamanho da pena- o fator de desestímulo a práticas criminosas. Quem conta com a ausência de penalidades não está preocupado se está sujeito pela lei a cumprir dois anos de prisão a mais ou a menos.
A perspectiva de que o tema da corrupção seja esquecido nas próximas eleições, pelo fato de todas as facções terem sido flagradas em irregularidades, só aumenta o temor de que a vida pública continue a ser um caminho para o enriquecimento ilícito.
A tamanho descontrole, o eleitor reage com indiferença ou com tentativas de impor algum crivo ético. É o caso do projeto que pretende vetar a candidatura de políticos com "ficha suja", uma iniciativa popular, com cerca de 1,5 milhão de assinaturas, encaminhada ao Congresso.
Embora o intuito seja elogiável, é controvertido impedir que alguém se candidate antes de ser condenado em definitivo, após esgotadas todas as possibilidades de recurso. A iniciativa em tela, porém, pretende cassar os direitos de políticos condenados em primeira instância ou cuja denúncia criminal tenha sido aceita por um tribunal de segunda ou terceira instâncias.
 Não seria difícil a um rival mal-intencionado promover a abertura de processos contra adversários e obter sua condenação em varas locais. Tribunais de Justiça -a cúpula do Judiciário estadual- seriam isentos ao julgarem adversários do grupo político que nomeou a maioria dos desembargadores? No caso de políticos com passagem pelo Executivo, é comum que sejam alvo de muitas ações judiciais. Não há saída a não ser aguardar o trânsito em julgado das ações.
O dilema é que, à luz de um sistema judicial moroso, a presunção de inocência pode tornar-se proteção de longo prazo para presumíveis culpados. Nesses casos, mais uma vez, a sensação de impunidade prevalecerá.
É preciso acelerar o trâmite dos processos sem tisnar a garantia fundamental da presunção de inocência. Acabar com a miríade de recursos protelatórios de defesa e impedir que casos simples tenham sempre de subir ao Supremo são iniciativas que apontam nessa direção.
Publicado por: http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=2635&Itemid=1